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A Princesa do Castelo 20 Abril, 2009

Posted by wicky in escrito.
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Um belo dia fiquei sabendo que num castelo havia uma princesinha muito bela, mas que nunca tinha saído da torre. Pelo que me falavam, a torre era bem confortável, tinha tudo, e a princesinha era muito feliz lá.

Até que me convidaram um dia pra visitar o castelo, um lugar muito bonito, bem limpinho, comida gostosa. Passei a ir mais vezes lá. Quando dava, eu ia na torre ver a princesa.

A princesa sempre sorridente, conversava animada, contava piadinhas… Era bom conversar com ela. Mas eu nunca lhe perguntara porque ela não saía da torre.

Visitas cada vez mais frequentes, e a princesinha sempre envolvida nos seus afazeres, ajudando o rei e a rainha nos eventos do castelo. Comecei a ir no dito castelo mais por causa da princesa. Acho que começava a nascer aí alguma coisa mais que a amizade.

Não me aguentei. Um dia, já certo que eu realmente estava gostando dela, resolvi me declarar. A princesa não sabia o que dizer. Apenas pediu desculpas, porque talvez o rei e a rainha não permitissem mais que o plebeu a visitasse.

-Mas eu falo com eles!

-Não sei se é uma boa idéia.

A princesa me contou que os reis nunca davam as caras, que ela os via somente por um buraquinho que existia na parede da torre.

-Não posso falar com eles, não posso sequer vê-los. Nem mesmo sair da torre.

Não aguentei e perguntei se eles eram bravos.

-Sou o tesouro mais valioso que eles tem. Eles acham que não existe ninguem à minha altura, e nao posso sair porque posso morrer. E eles não querem que eu morra.

Eu sei, eu sou um plebeu. Mas não me arrependo do que fiz, e que vou contar agora.

Na visita que fiz na semana seguinte, não me deixaram entrar. Os reis ficaram sabendo da conversa que tive com a princesa, e acharam por bem proibir meu acesso a torre. Sentei na escada do castelo e apareceu um cavalo preto, vejam só, um cavalo preto que me disse:

-Ei, vai ficar aí parado? A torre é alta, mas o céu é o limite.

Cavalos não falam. Mas esse cavalo até que disse uma coisa certa. Ele saiu de perto e comecei a pensar: o céu é o limite… a torre é alta… Acho que entendi.

Esperei anoitecer, peguei uma escada emprestada e encostei na parede do castelo.

Xi, ela era pequena.

Mas tinha uma árvore do lado. Encostei a escada na árvore, subi até a pontinha do último galho… Joguei uma pedrinha na janela da torre. A princesa se assustou:

-Você é doido! Não podemos fazer isso! – disse a princesa.

-Deixa eu entrar aí.

Ela disse que não… Eu me joguei com toda força no parapeito da janela da torre. Caí dentro do quarto.

Falei dos meus sentimentos para ela, e para a minha surpresa ela também disse que sentia algo por mim, ainda que não soubesse direito o que era. Convidei-a para dar uma volta, mas ela disse não.
-Não posso… Se o rei e a rainha não me deixam sair daqui, é porque realmente é perigoso.

-Vem comigo, não é… Eu vivo desde sempre lá embaixo, e nunca me aconteceu nada. Vem, quero te levar na fonte, ela é muito bonita.

-Não posso. Você tem que entender.

Saí da torre triste. Puxa vida, porque uma princesinha tão bonitinha não pode sair dar uma volta, jogar uma moeda na fonte como todas as moças fazem?

Sentei embaixo de uma árvore, e levei um susto:

- As coisas valiosas custam caro. A torre é alta, mas o céu é o limite.

-Ei! Cavalos não falam!

Estranho, aparece um cavalo do nada, fala as coisas e some. Parece história da carochinha.

Bom, de qualquer forma o tal corcel negro tinha razão. Comecei a pensar. Peguei a escada de novo, encostei na árvore, subi até a pontinha do último galho, até cair no quarto da princesa outra vez.

-Ei, eu estou decidido. Eu fico ali embaixo até você querer descer e passear comigo.

-Eu não posso. O rei e a rainha não vão gostar.

-Peça pra eles.

-Não posso.

-Porque?

-Porque eu não os vejo.

Não me aguentei e comecei a perguntar para aquela princesinha como era essa história de não poder ver o rei e a rainha. Ela me levou até um cantinho da parede da torre, e mostrou uma fenda, pela qual ela conversava com eles.

-Eles quando querem falar comigo, falam por aqui. Eu não os vejo, nem eles a mim. Não sabem meu tamanho, não sabem como é meu rosto. Tudo o que eles tem é uma foto minha de quando eu era pequena. Já tentaram dizer para eles que eu preciso sair, que eu preciso ser rainha, mas eles não querem admitir que eu cresci, sou mulher e tenho uma missao a desempenhar no mundo. Fico aqui na torre o dia todo. Não posso nem descer as escadas do castelo. Não sei nem como é o castelo que eu moro.

Não me aguentei: peguei-a pelo braço e disse:

-Ei, pelo menos o castelo você vai conhecer agora.

Nao sei como eu consegui abrir a porta. Estava escuro e descemos as escadas. A princesa ficou encantada com o castelo… Mas era hora de voltar…

-Amanhã eu venho para te buscar… Vamos passear no jardim…

-Não venha plebeu! Eu tenho medo!

A princesa tinha medo… Eu tambem tinha, mas o que o cavalo me disse tinha certo fundamento…

No dia seguinte, voltei à torre.

A princesa resistiu, mas insisti e ela saiu para dar uma volta comigo no jardim do castelo. Mas alguém viu…

No outro dia, quando eu subia na árvore para entrar na torre, do ultimo galho eu escutei um barulho.

-Fica aí mocinho. Vamos cortar a árvore, e você vai cair junto.

Não deu tempo de nada. Quando vi, a árvore caiu com tudo. Quando acordei eu estava num lugar escuro.

- Você sabe que não poderia ter feito isto. Você foi ousado demais.

- Que foi que eu fiz? – Eu estava atordoado, só consegui perguntar isto…

-Você fez tudo que não poderia fazer…

Foi aí que eu vi. Havia uma fenda, pela qual saía aquela voz. Eram os reis. Parecia o fim.

Quando passou a tontura, me levantei e fui até a praça. Gostava de sentar ali e pensar. De repente, escutei uma voz…

-O céu é o limite… a torre é alta, mas o céu é o limite…

-Ei cavalo, venha aqui, agora você vai me ouvir.

-Rápido, eu tenho outros plebeus pra ajudar.

-Que história é essa de ‘a torre é alta e o céu é o limite?’

O cavalo sentou (nunca pensei que ia ver um cavalo sentar), e começou a me explicar calmamente:

-Veja bem: todas as vezes que te encontrei, você estava sentado, olhando pra baixo, desejando encontrar uma solução para salvar a princesa. Ela continua na torre, e você continua sentado, buscando uma solução. Ela sabe que o mundo aqui fora existe, e você sabe onde ela está. A torre é alta, mas você foi lá e escalou a torre para vê-la. Agora, não existe mais a árvore para você subir, ou seja, o limite é o céu, a torre está mais perto do céu do que você. O que resta? A princesa pular de lá.

-Mas ela pode morrer se pular. E eu não quero que ela morra.

-Os reis também não querem que ela morra, no entanto ela continua na torre.

O cavalo me olhou nos olhos, e disse:

-Você acha que ela pula?

-Não sei… Eu quero que sim. Eu quero levá-la à fonte. Ela não pode morrer sem ver a fonte.

-Ela não vai morrer sem ver a fonte. Mas ela precisa ver em você a beleza e o brilho que causa a fonte em todos que a vêem.

Não resisti e acabei perguntando ao cavalo:

-Mas como eu faço para que ela veja em mim o brilho da fonte?

-Se você for ao pé da torre, e gritar por ela, ela te ouvirá e entenderá que a única forma de sair da torre é pulando. Mas eu te dou uma dica: não grite olhando para a torre. Grite olhando para o céu… a sua voz será melhor ouvida se dirigida para o céu e não para a torre. Olhe para o céu, e o brilho da fonte aparecerá em seus olhos, e ela verá que a fonte é bonita e desejará conhecê-la.

-Mas e se ela pular e se arrepender, ou se machucar, ou se morrer?

- Plebeu, você tem muitas perguntas… Ela sabe que pular é uma decisão importante… E sabe também que pode chegar aqui embaixo e se machucar. Porém o mais importante: ela sabe que independente de qualquer coisa, ela verá a fonte, e sabe que você estará esperando por ela, pronto para lhe segurar.

O cavalo acendeu um cigarro e saiu de perto sem dizer nada. Fiquei pensando: meu Deus, não seria melhor deixá-la na torre, esquecê-la, quem sabe tudo ficasse melhor? Quem sabe viria um principe num cavalo branco e a tiraria com maior segurança da torre, e aí ela seria rainha, e cumpriria sua missão no mundo?

Fui para o castelo. Estava um sol forte. Eu fui com medo, com pouca esperança de que ela pulasse… Duvidando do que o cavalo me disse. Cheguei perto da torre, olhei pra janela, e nada…

Tomei um fôlego, ergui a cabeça  e gritei:

PRINCESAAAAAAAAA….

Meu grito fez eco. Acho que ela ouviu… Esperei mais um pouco:

-PRINCESAAAAAAAAAA……

Olhei na janela da torre, nada…

Nisso, senti uma coisa quente nas costas. Era uma flecha. Aquilo doía muito… Comecei a chorar de dor… Lembrei do que disse o cavalo, de olhar para o céu, para que o grito chegasse até a torre.

-PRINCESAAAAAAAAAAAAAAA…

Vieram mais duas flechas… aquilo doía muito… Eu não conseguia ver de onde elas vinham. Só sei que uma silhueta apareceu na janelinha da torre, era ela!

-PULAAAAA, VEEEEEM…. EU TO AQUIII…

Eu estava sem folego, com tres flechas nas costas… Não conseguia erguer a cabeça, não conseguia gritar… Como eu ia segurar a princesa, caso ela se jogasse?

Respirei fundo… Segurei na haste da flecha e puxei com força… Arranquei uma por uma… Tomei folego e gritei de volta…

-PULAAAAAA… EU TO AQUIIII…

Ela sabia que precisava pular, eu sabia que ela ia pular… Mas tanto eu quanto ela tínhamos medo de morrermos… Ela por pular, e eu das flechadas…”

*


Carta a dois ’senhores’… 19 Abril, 2009

Posted by wicky in pessoal.
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‘Senhores’…

Esta noite, enquanto vocês repousam e quem sabe viajam em seus sonhos e projetos, eu lia atentamente certas palavras que mexeram profundamente comigo, e me fizeram pensar sobre felicidade.

Eu tenho só 24 anos, e em tão pouco tempo tantas coisas aconteceram na minha vida. Tantas marés que eu achava que jamais iam passar, e acabaram passando…

Confesso que esta maré em particular está difícil, mas eu parei de olhar pra mim mesmo e tenho me esforçado pra acreditar que ela é importante e vai passar como todas as outras passaram.

Eu sei que o sono de vocês agora talvez não esteja dos melhores, ou quem sabe até esteja; mas queria muito poder dizer que existem dois corações no planeta que neste momento estão batendo caladinhos, com medo e devagar para não fazer barulho. Queria muito que o som deles batendo pudesse ecoar no fundo de suas consciências, e pudessem perceber o tamanho de todo mal que se está produzindo em torno de duas vidas, que apenas desejam estar juntas.

Essas vidas descobriram que a felicidade é muito maior do que coordenar, discutir, enfeitar e recortar lembranças; pelo contrário, a felicidade está na simplicidade de um sorriso, num abraço apertado, num suspiro tímido… A felicidade é um recorte de pequenas letras, feitas de fé, de experiências, de pequenas gotas de vontade, e grandes porções de felicidade, todas vindas do céu.

‘Senhores’, a vida não é uma reunião em que se pode decidir pelo sim ou pelo não; a vida é o sangue circulando nas veias, é o calor do sol ou ainda o frio de um vento que teima em sacudir os cabelos… A vida não se decide num círculo de pessoas ‘capacitadas’ para julgar, a vida se resolve fazendo o que Jesus ensinou ‘amar o próximo’…

Eu vos amo ’senhores’. Decididamente eu vos amo. Amá-los não implica em fazer nascer um sentimento dentro de mim por vocês, implica eu decidir por amá-los, decidir que não importa o que façam, o que falem, quero amá-los, quero que meu coração bata forte por vocês, porque de vocês veio a vida que eu igualmente amo. Vosso rancor, vossa sede de justiça, eu quero e vou responder à altura, tendo ao meu lado o amor e a justiça. E a resposta é mais amor.

Humanamente eu posso? Claro que não. Sou débil como vocês, ’senhores’. Tenho dentro de mim talvez pecados maiores e que me obriguem a respeitá-los ainda mais… Porém graças ao vossos sentimentos negativos, estou podendo descobrir dentro de mim a força verdadeira na qual se traduz a fé: amar, não afetivamente, mas pacientemente; esperar pelo dia que Deus virá na vossa vida com força.

Sim meus diletos ’senhores’, Ele virá em vossas vidas. Como um dia veio na minha, me chamando pelo nome, iluminando a minha cruz, me preparando para algo grande, algo que não sei o que é. Mas Ele veio. Ele vem na minha vida todos os dias, inclusive mediante vosso ódio, e vossas palavras duras. Ele está convosco, ele vos cerca, por trás, pela frente… E este momento que vivemos, nos prepara para quando Ele chegar e não tenhamos mais como negar que se trata de Deus. Com toda a certeza do mundo: é assim que Ele age!

Nos resta, no caminho que ainda temos a percorrer, pedirmos ao Criador que nos alimente com humildade: que nos permita arrancar as cascas de nossas feridas para que sejam curadas definitivamente, reconhecendo que no outro há aquilo que no meu coração se esconde no mais oculto. Reconhecer que onde sou moralista, exponho minha fraqueza e meu pecado. Reconhecer que vivemos debaixo de um céu, cujo Deus não se encontra fechado numa Igreja ou sentado num trono, mas está do nosso lado, chorando conosco, sorrindo conosco.

Perdoando.

Aceitando.

Humilhando-se.

Afinal,

Nosso Deus morreu nu, desfigurado e profundamente maltratado.

E por incrivel que pareça, ainda gritamos “Crucifica-o!”.

Que Deus vos conceda todas as graças e bênçãos, materiais e espirituais, e que um dia vocês possam experimentar profundamente o amor e a fidelidade de Cristo.

Assino,

Jorge

Ó noite, realmente maravilhosa… 8 Abril, 2009

Posted by wicky in 1.
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Porque a celebração pascal exerce tanto fascínio? Qual é o sentido de se esperar ansioso pela noite maravilhosa? Confesso que sempre vivi com muito mais devoção a quinta-feira santa, a tristeza da prisão de Jesus, o desnudamento solene do altar, as vestes sóbrias do sacerdote… E confesso também que a noite das noites para mim por muito tempo, teve uma importância menor do que as demais celebrações.

Mas hoje, depois de tantos inimigos vencidos, de tantos sofrimentos iluminados, depois de descobrir que o que quer me matar é força para continuar… Descobri que esta noite, é a noite em que brilha na escuridão do mundo, a luz resplandecente do vencedor da morte.

A morte que rodeia o mundo, a morte que está aqui, do meu lado, nos meus sofrimentos, nas minhas angústias, nos problemas sem solução… Esta morte será vencida, por aquele que morreu, mas que ressuscitou. Não algo mágico, mas concreto; não uma simples data, um acontecimento.

Como é bom estar feliz e esperar ansioso por esta noite! Como é bom viver de Páscoa em Páscoa! Como é bom celebrar com louvores ao Deus altíssimo; anunciar pela manhã sua bondade e o seu amor fiel a noite inteira! Como é bom esperar, se preparar, comprar roupa nova, lustrar os sapatos… Como é bom!

A noite realmente gloriosa, que me reconcilia com Deus, que me devolve a alegria de acreditar que o céu existe, que tudo aqui passa! Que me permite soltar o grito entalado dentro de mim, que Jesus é um cara de verdade que existe, está ressuscitado e vai comigo!

Venha, ó noite! Venha porque é em você que despontará a luz radiante, a estrela da manhã, sol que não conhece ocaso!